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A história do descobrimento do Brasil

Alguns mitos e polêmicas são levantados quando o assunto tratado é o descobrimento do Brasil. Foi por acaso ou intencional? Aconteceu realmente em 1500? No Ensino Fundamental, foi-me ensinada uma versão que por muito tempo tive como fiel à realidade. Já no Ensino Médio, apresentaram-me uma versão muito diferente daquela. Hoje tenho informações suficientes para analisar a questão sem os perigosos “achismos”. Compartilho algumas delas a seguir.

Para tratar do início da história do Brasil, é preciso entender um pouco do contexto histórico da época. O descobrimento do Brasil se deu num período de transição que ocorria na Europa. Era a transição do modo de produção feudal para o modo de produção capitalista.

Representação de um feudo

O Feudalismo esteve em vigência na Europa do século IX até o século XI, quando se inicia a transição para o Capitalismo. O continente estava dividido em várias porções de terra, algumas enormes, outras um pouco menores; eram resquícios do Império Romano. Essas porções de terra eram os “feudos”, cujos proprietários eram os “senhores feudais”. Naquela época, o comércio estava estagnado, e as relações sociais aconteciam quase que exclusivamente dentro de cada feudo. Num feudo, habitava o senhor feudal com a sua família, juntamente com seus “servos”. Esses servos eram camponeses a quem o senhor feudal disponibilizava parte de sua terra, em troca de proteção e fidelidade. Os servos cultivavam a terra e forneciam ao feudo todos os produtos necessários para sua subsistência, o que caracterizava a independência de cada feudo. O mais próximo de “comércio” que existia na época eram trocas de mercadorias entre feudos próximos.

A partir do século XI, essas relações começaram a mudar. O comércio começou a se desenvolver, causando o crescimento urbano europeu. O novo modo de produção que se desenvolvia visava ao acúmulo de riquezas. A principal e mais lucrativa atividade dos países europeus era ir até as Índias, comprar as famosas especiarias (cravo, canela, gengibre, noz moscada, pimenta, etc.), e revendê-las a preços absurdos na Europa, obtendo cerca de 300% de lucro.

O desenvolvimento comercial que estava acontecendo incentivou a expansão marítima, pela busca de novos mercados e novas rotas comerciais. Iniciava-se a época das grandes navegações, da qual Portugal foi o pioneiro.

O país português estava em busca de uma nova rota para as Índias, que substituísse o caminho que passava pelo Mediterrâneo, evitando as altas taxas de impostos ali cobradas. Portugal já possuía colônias na África, e decidiu investir na tentativa de contorná-la, passando pelo Cabo das Tormentas (extremo sul do continente africano), para chegar até o destino desejado. A rota pretendida está ilustrada na imagem abaixo:

Dentro desse contexto, vale mencionar Bartolomeu Dias. Esse foi o primeiro homem a chegar até o Cabo das Tormentas, em 1488. Por conta do acontecido, o Cabo das Tormentas foi rebatizado pelo rei português de “Cabo da Boa Esperança”, que representava a renovada esperança de se chegar às Índias por uma nova rota. Porém, a embarcação parou por ali e retornou a Portugal.

Em 1492, os portugueses foram surpreendidos pela Espanha, que também estava expandido suas navegações. Cristóvão Colombo, navegador italiano que trabalhava para a coroa espanhola, teve a seguinte idéia: sendo a terra realmente redonda, como se supunha (naquela época, ainda não se tinha certeza disso), ao se navegar em linha reta, chegar-se-ia às Índias. Na tentativa de colocar sua idéia em prática, Colombo deparou-se com um enorme continente à sua frente, a atual América – até então desconhecida pelos europeus – desembarcando no norte do continente. No entanto, ele morreu acreditando que havia realmente chegado nas Índias. Portugal, desconfiando de que Colombo havia chegado a um novo continente, mandou para o local o navegante Américo Vespúcio, para que descrevesse a situação naquela terra distante.

As observações de Vespúcio sugeriram que aquele lugar era apenas uma parte de um continente enorme, e que deveria haver mais terras ao sul. Dessa forma, Portugal exige um acordo com a Espanha para dividir as novas terras, na tentativa de evitar sua divisão com outros países europeus.

O papa da época, Alexandre VI, foi quem fez o papel de intermediador desse acordo. Sua proposta foi a chamada “Bula Inter Coetera” – uma linha imaginária que definia como sendo espanholas as terras a seu oeste, e portuguesas as terras a seu leste.

A Bula Inter Coetera

Essa linha imaginária passava pelo oceano Atlântico, nas proximidades com a África (a figura ao lado mostra sua localização). Portugal não aceitou essa proposta. Entretanto, como a maioria pensa, o motivo da recusa não foi a ausência de terras no lado português do acordo. Como eu disse antes, a principal e mais lucrativa atividade da época era a comercialização das especiarias das Índias. A posse ou a colonização de novas terras teria uma lucratividade muito baixa em comparação ao comércio das especiarias. Em detrimento da Bula Inter Coetera, Portugal propôs o Tratado de Tordesilhas (mostrado abaixo), uma linha imaginária que ficava a oeste da Bula Inter Coetera. O [verdadeiro] objetivo dos portugueses ao propor o novo acordo era manter a Espanha afastada da rota que levava às Índias. Pela Bula Inter Coetera, os espanhóis controlariam uma parte do oceano muito próxima à África; já pelo Tratado de Tordesilhas, Portugal poderia controlar essa área, impedindo que a Espanha chegasse às Índias por aquele caminho. Foi firmado, então, o Tratado de Tordesilhas, em 1494.

Em 1498, acontece outro fato célebre e inédito para a história portuguesa: Vasco da Gama contorna o continente africano e consegue chegar às Índias.

Já em 1500, Pedro Álvares Cabral também foi mandado às Índias pelo rei de Portugal, Dom Manuel I. Com embarcações muito bem organizadas – 13 embarcações, num total de aproximadamente 1200 homens –, e a mando do rei português, sua tropa, antes de contornar à África, deveria desviar-se da rota para tomar posse das novas terras descobertas no oeste. Assim, chegaram ao Brasil Pedro Álvares Cabral e sua tropa, marcando o descobrimento oficial de nosso pai, em 22 de abril de 1500.

Ao contrário do que era ensinado na maioria das escolas há alguns anos, a descoberta do Brasil foi intencional e planejada, apenas uma formalidade para garantir a possessão de novas terras. Outra confirmação do fato é que Pedro Álvares Cabral, após descobrir e permanecer alguns dias no Brasil, retomou sua viagem às Índias, chegando lá alguns meses depois.

Giulia R.

Curiosidade sobre o assunto:

  • Pintores europeus, ao retratarem a chegada dos portugueses ao Brasil, retratavam coqueiros. No entanto, naquela época não existiam coqueiros no Brasil. A espécie é nativa da Índia, e foi trazida de lá por volta de 1550.
  • O Tratado de Tordesilhas leva esse nome por ter sido assinado na cidade de Tordesilhas, na Espanha.
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